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A realidade biológica e psicológica da pessoa

A realidade biológica e psicológica da pessoa

Fevereiro 09, 2016

No passado dia 1 de Fevereiro, assistimos nos Álamos a uma sessão, integrada no Ciclo de Bioética, sobre Antropologia da sexualidade com o professor de Direito da Universidade de Lisboa, Doutor Diogo Gonçalves. Falou-nos mais concretamente da ideologia do género, um tema muito presente em todos os quadrantes da sociedade do século XXI. Tentarei traçar muito sinteticamente algumas pinceladas do seu brilhante discurso.
A ideologia do género constitui uma estrutura de pensamento antropológica que se pretende vender muitas vezes como uma mera questão de luta política pela igualdade entre homens e mulheres. Há, sem dúvida, certos aspectos de tal estrutura com que a maior parte das pessoas naturalmente concorda, no entanto, o substracto de pensamento que lhe subjaz é de todo incompatível com a antropologia judaico-cristã pelo facto de propor uma ideia de homem “libertado” do próprio corpo.

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A ideologia de género tem um cunho neo-marxista, chegando os seus defensores a evocar uma frase de Engels em que o teórico revolucionário afirma que a primeira luta de classes existe entre marido e mulher num casamento monogâmico. Tais teóricos promovem uma sociedade sem sexos, mostram a história como uma dialéctica em que o masculino luta contra o feminino, e, finalmente, anseiam por chegar a uma síntese libertadora em que não existe diferenciação sexual.
O conceito de género teve origem nas ciências exactas, na segunda metade do século XX, nos EUA, tendo sido cunhada pelo psiquiatra John Money. Numa fase inicial do seu estudo, este médico propôs que se usasse o conceito de género para a referência a aspectos culturais e psíquicos da pessoa e o conceito de sexo para as questões biológicas. Numa fase posterior, ao tentar determinar a relação entre o sexo biológico e o sexo psicológico, chegou a uma conclusão: muito pouco ou quase nada da realidade psicológica estaria associada à realidade biológica, pelo que o conceito de género também se deveria passar a aplicar à realidade biológica. Ora, semelhante conclusão, apesar de ser a base da ideologia do género, está hoje em dia cientificamente ultrapassada pelo facto de se comprovar que a identidade sexual está inscrita em cada uma das células do homem e que, portanto, não se pode separar a realidade biológica da realidade psicológica.
Quanto a esta questão, é muito significativo o famoso caso dos gémeos canadenses John and Joan. Devido a um acidente aos oito meses, um dos gémeos foi mutilado na parte externa dos seus órgãos genitais, por isso, depois de várias consultas sem nenhum resultado, os pais recorreram ao Dr. John Money. Segundo a teoria deste especialista em mudança de sexo, as crianças, nos dois primeiros anos de vida, não teriam um sexo pré-estabelecido, pelo que aconselhou aos pais dos gémeos que criassem a criança como menina, já que tinha sido mutilada. De acordo com a sua teoria da gender neutrality, não haveria qualquer problema, pois o Bruce (o gémeo afectado) ainda estava na fase de se poder identificar com o sexo feminino. Considerava-se este um caso perfeito para demonstrar a teoria científica de J. Money.
Finalmente, após o acordo dos pais, o Bruce foi submetido à realização cirúrgica de uma fissura vaginal. A família foi orientada para nunca revelar a sua origem “masculina” e deu-se-lhe o nome de Brenda. Os primeiros anos de vida de Brenda pareceram correr normalmente, no entanto, o conflito identitário começa a explodir, de choque em choque, a partir dos 12 anos gerando desejos suicidas que tiveram um termo aos 38, com o suicídio de Bruce. O irmão gémeo, depois de ter desenvolvido uma esquizofrenia – em estreita relação com as vivências de Bruce – também acabou por se suicidar por overdose.
A história pode ser facilmente encontrada, de forma completa, na internet. O que interessa é reforçar a ideia da união tão estreita que há entre a realidade biológica e a realidade psicológica da pessoa, não sendo verdade que haja “neutralidade de sexo” em nenhuma fase da vida humana, ao contrário do que pretendia demonstrar o Dr. John Money, inventor do conceito de género.
Apesar de exemplos como este, com o passar do tempo, o conceito de género foi sendo apropriado pelas ciências sociais e humanas e assumindo contornos marcadamente ideológicos.

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A ideologia do género é caracterizada por um dualismo corpo/ espírito. A realidade pessoal é considerada como independente da realidade corporal e o homem relaciona-se com o corpo como se de objecto se tratasse. Assim, a pessoa passa a ser vista como uma realidade sexualmente neutra cujo corpo pode ser manipulado. A aceitação destes pressupostos tem como consequência inevitável a degradação das relações entre os corpos, ou seja, a admissão de formas de relacionamento corporal que não respeitam a totalidade da pessoa. Isto é consequência de se considerar que o corpo nada tem a ver com a realidade pessoal e que aquilo que cada um faz com o seu corpo não afecta aquilo que a pessoa é.
Pelo contrário, para a antropologia judaico-cristã, a realidade pessoal é constituída pela sua união estreita e indissociável entre o corpo e a alma. A sexualidade de cada um marca o seu modo de ser, sendo cada um ontologicamente masculino ou ontologicamente feminino, respectivamente. Se uma pessoa nasce com o sexo feminino, constitui uma realidade completamente feminina em todos os seus actos. É próprio do ser pessoa autopossuir-se, ou seja, o corpo pertence à pessoa, não como lhe pertencem os seus bens materiais, mas como parte constitutiva da sua realidade pessoal. Assim, o corpo manifesta-se no todo da pessoa e não como uma realidade autónoma ou justaposta.
O exército dos defensores da ideologia do género trava uma luta pela libertação do próprio corpo com consequências desastrosas, já que o nosso corpo foi criado para estar intimamente unido à alma e, portanto, quando dela se tenta separar, não pode deixar de entrar em conflito e desarmonia. A propósito disto, Bento XVI, afirmou graficamente que a ideologia do género é a última rebelião da criatura contra a sua condição enquanto tal.
Por último, refiro outro aspecto descrito pelo Doutor Diogo Gonçalves. Quando os pais oferecem bonecas às filhas, ainda pequenas, e carrinhos aos filhos, não lhes estão a impor um sexo nem a roubar a possibilidade de eles escolherem a sua identidade. Os pais e a sociedade em redor apenas oferecem às crianças sinais de linguagem que as permitam conhecer cada vez melhor a sua identidade, que já está gravada no seu ser. Seria ridículo, por exemplo, começar a trocar os nomes dos objectos para dar às crianças a possibilidade de verem os objectos de uma maneira diferente da nossa. A mesa não deixaria de ser mesa, por mais que ensinássemos a criança a chamá-la ‘bola’ ou ‘livro’. Aliás, deixá-la-íamos bastante baralhada e com mais trabalho para conhecer totalmente sozinha a realidade à sua volta.
É inquestionável que ninguém tem uma sexualidade neutra. Somos aquilo que somos e “brincar” com a identidade que nos pertence desde que existimos é, no mínimo “uma brincadeira de mau gosto”, que pode além disso ter elevados danos antes de mais para si próprio.

Madalena Brito, aluna de doutoramento na Universidade de Letras de Lisboa