Os refugiados em debate num cineforum com Rui Marques
No final do dia 3 de Junho, 6ª feira, tivemos, nos Álamos, uma oportunidade de reflectir sobre o drama actual dos refugiados, a partir de um filme (daqueles em que se sente um murro no estômago) e do comentário feito por um convidado com especiais inquietações humanitárias (daqueles que inflama a assistência!).
O filme, The Good Lie, centra-se na história de quatro sudaneses que ficaram órfãos na guerra do Sudão. Depois de vários anos a viver num campo de refugiados, emigram para os EUA, onde deparam com um acidentado caminho de integração. Nesse percurso, aqueles que os receberam percorrem a custo um processo de aprendizagem na maneira de olhar para o outro-com-uma-cultura-e-experiência-vivencial-completamente-diferentes-e-desconhecidos. Impressiona a riqueza interior e a beleza da vida daqueles sudaneses que, habituados a viver com muito pouco, sabiam apreciar aquilo com que se conseguiam sustentar em cada dia, por pouco que fosse, e valorizar cada pequeno gesto e cada pequeno bem, espiritual ou material. Exemplificando bem estes contraste existenciais, o filme mostra o seguinte: quando estes refugiados chegaram aos EUA, a pessoa que os foi receber perguntou-lhes pelas suas bagagens, com evidente ignorância; sem darem importância ao despiste crasso do anfitrião, mostraram apenas, cada um, um simples saco de plástico.

Quanto ao convidado deste cineforum, tivemos a sorte de ter connosco Rui Marques, o responsável da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados – cf. http://www.refugiados.pt). Como não tirei notas deste debate, fui pesquisar algumas entrevistas que Rui Marques tem dado ultimamente, para poder citá-lo textualmente de vez em quando. A conversa teve como ponto de partida o filme The Good Lie mas acabou por se centrar na actual crise de refugiados que se vive na Europa e no Médio Oriente: a maior crise de refugiados depois da 2ª Guerra Mundial. Surgiram várias questões que não podem deixar de “mexer” com cada um de nós e que dizem respeito a qualquer ser humano.
Perante o actual cenário de guerra no Médio Oriente e de êxodo de refugiados para a Europa surgem frequentemente várias interrogações na opinião pública …. e provavelmente na opinião pessoal de cada um de nós: “Virão terroristas? Há uma invasão? Vai haver uma “islamização? O que temos chega para todos ou somos pobres de mais para partilhar o que temos?” (cf. Refugiados, Revista coordenada por Rui Marques, p. 2; está disponível para download na internet em http://www.refugiados.pt/teste/). Surgem também, inerentes a estes receios, alguns perigos: cair em generalizações erradas como confundir muçulmanos e terroristas, deixarmo-nos manipular por informações falsas e campanhas xenófobas, deixar que o receio cresça e se transforme em ódio, acreditar na manipulação de certas notícias negativas ou na exacerbação da opinião pública hostil, etc.
O medo desumanizador que hoje experimentamos pode mesmo chegar a apresentar certas semelhanças com o que se viveu na Alemanha e que desembocou na perseguição e aniquilação dos judeus pelos nazis. Por isso mesmo, torna-se um dever grave de consciência e humanidade que, antes de nos deixarmos envolver pelo medo, procuremos a verdade. Já que o medo pode gerar a desumanização – tal como reza a história -, seria caso para alertar: pare, escute e olhe!
Todos gostaríamos que a Europa se definisse, não pela precipitação do seu julgar e actuar, mas pela preocupação de ser solidária e corajosa no acolhimento de um outro-completamente-indefeso-igual-a-mim-com-uma-experiência-de-indizível-sofrimento.
Parar, escutar e olhar, para não atropelar, consiste, neste caso, na recusa de alarmismos e preconceitos, na preocupação por conhecer a história do outro e por vestir a sua pele. É arrepiante como, por vezes, o ser humano é tão indiferente ao sofrimento de quem está longe, lá para o Médio Oriente. Provavelmente um antídoto contra alguns “cancros” que nascem desta crise poderia encontrar-se em um pouco mais de compaixão e coração. Uma “quimioterapia” eficaz poderia ser a de desenvolver a capacidade de nos impressionarmos e comovermos perante o sofrimento dos outros-que-vivem-para-lá-da-Europa-e-que-sofrem-tanto. O resultado poderia ser variado e rico: o resgate da nossa humanidade depois de nos pormos na pele do outro, de nos sentirmos tocados por essas pessoas, de propagarmos ondas de solidariedade, ainda que, na prática, possamos fazer pouco… Trata-se de compreender a situação, de nos sentirmos próximos e de nos mostrarmos como seres humanos.
Rui Marques, relativamente a isto, recordou-nos algo que se fez nas escolas portuguesas no ano lectivo passado. Foi proposto um exercício de empatia dos alunos com a experiência dos refugiados sírios. Cada aluno levou para escola uma mochila com aquilo que teria de levar se fosse um refugiado que fugia da guerra na Síria. Foi um exercício belo, porque muito humano, ver nas crianças um sentimento de compaixão, por se terem posto na pele de quem está a sofrer tanto neste momento, a muitos quilómetros de distância e que é um alguém igual a nós. Podia ser bastante saudável que cada europeu se propusesse a “desgrudar” um pouco os olhos do nosso continente e a viajar mentalmente e sentimentalmente até ao Médio Oriente.

Imagem: Rui Marques num campo de refugiados. (Sulinformação)
Ao olharmos para a Síria, avistamos um povo que convive habitualmente com bombas a explodir ao pé, sem saber se estarão vivas no dia a seguir nem se terão vivos os seus familiares. Sabemos que já houve mais de 4 milhões de sírios que decidiram fugir para um cenário diferente, arriscando a vida e o futuro, pessoas que viviam o seu normal curso de vida: laços familiares e de amizade, bagagem variada de estudos, formação e educação, profissão ganha com esforço, meios de sustento adquiridos com suor e mérito, uma montanha de memórias queridas guardadas em cada canto da sua casa, da sua cidade e país, inserção numa estrutura social, etc. De repente, amigos e familiares de uns servem de pasto das bombas, os de outros ficam gravemente feridos, a comida e a água escasseiam, os perigos aumentam e é preciso escolher entre partir com risco de vida ou ficar num cenário de morte instalada. Seguem-se alguns destinos em concreto. A maior parte dos refugiados, normalmente, não pensa em vir para a Europa. Enquanto os europeus estão preocupados com o seu umbigo demasiado apertado, o Líbano, por exemplo, com uma população de 4 milhões de habitantes, abriu os braços, até agora a mais de um milhão e meio de refugiados. Quando os vêem, esquecem-se de que foram seus inimigos e apenas pensam que são pessoas que fogem desesperadamente da guerra e da destruição.
Infelizmente, muitos dos refugiados que se dirigiam para os campos de refugiados do Líbano, da Turquia e da Jordânia, recentemente e de repente, sofreram um duro e racionalmente inexplicável golpe das Nações Unidas: num período em que a fome e a sede aumentam, vêem cortada a 40 % a assistência alimentar internacional (via Programa Alimentar Mundial / World Food Program) vendo-se, assim, obrigados ao êxodo desesperado para a Europa, onde esperam encontrar um sustento mais generoso, depois de um percurso cheio de perigos. Muitos deles – na maior parte crianças, mulheres e idosos -, como infelizmente sabemos pelos media, ficam pelo caminho.
Na Europa, entramos em estado de choque perante os atentados terroristas em França, em Bruxelas e na Alemanha, às vezes sem ter em conta “que aquilo que estamos a sentir na Europa e este sofrimento e luto que vivemos é o que muitos outros têm sentido noutros contextos, quando são vítimas de atentados terroristas como este. Creio que temos de ser solidários, nós europeus, entre nós, e solidários com todos aqueles que em qualquer parte do mundo sofrem actos terroristas como este, nomeadamente do ISIS”, referiu o nosso convidado. E, ressaltou durante o debate, é um erro usar o termo “Estado Islâmico”, uma vez que estes terroristas, apesar de se autoproclamarem como tal, não se constituem como Estado, pelo que é mais correcto referi-los, por exemplo, como grupo de terroristas jihadistas.
Perante isto, “temos de decidir que Europa é que queremos ser: a Europa que salva, ou a que deixa morrer“. Tristemente, a gestão da crise dos refugiados pela UE é actualmente um escândalo caracterizado pela demora no processo de acolhimento, pelo excesso de burocracia e pela falta de vontade política. Um exemplo gráfico está patente no contraste arrasador, ou até diria caricato, verificado entre o número de refugiados que a Europa recebeu até agora (Junho 2016) e aquele a que, em Setembro 2015, se tinha comprometido receber: 160 mil pessoas. Mesmo este número é “completamente ridículo para um conjunto de países que tem mais de 500 milhões de pessoas. Só o Líbano, um país pobre que não tem os recursos da Europa, tem 25% da população, cerca de um milhão de pessoas que são refugiados. A Jordânia tem 600 mil. E a Europa está a discutir 160 mil para os 28 países? Temos de ter a noção do ridículo das discussões que temos“, diz Rui Marques.

Imagem: Rui Marques num campo de refugiados. (Visão)
Por um lado, é verdade que o acolhimento de tantos refugiados implicará sempre um maior risco para a segurança dos países de acolhimento. Por outro lado, o “princípio do acolhimento é inegociável. Claro que tem riscos, mas não é por ter riscos que vamos renunciar ao princípio”. Além disso, é “inacreditável se fizermos os refugiados pagar a factura do terrorismo”. Como seres humanos, torna-se evidente que temos o dever de afirmar a coragem de “acolher quem, tendo perdido tudo, procura uma oportunidade de recomeçar a vida. Acolher quem, tendo sofrido as dores provocadas pela guerra e por outros conflitos, procura um abrigo e uma comunidade que os receba como seres humanos iguais a nós. Acolher quem espera que a Europa seja a terra da solidariedade, dos Direitos Humanos e do convívio pacífico entre a diversidade” (cf. Refugiados, p. 3). Apesar dos riscos, temos de ter a coragem de nos mobilizarmos “pelos valores da hospitalidade” (cf. Refugiados, p. 3). “A actual crise não é só a maior crise humanitária na Europa desde a IIª Guerra Mundial. É um momento fundamental para o nosso futuro colectivo. Por estes dias vamo-nos definir. Quem somos, o que queremos, para onde vamos enquanto civilização. A resposta está em cada um/a de nós. E não deve ser condicionada pelo medo”(cf. Refugiados, p. 3).
Depende de nós que nos definamos pela precipitação, o medo e a desumanização ou pela solidariedade e a humanidade. Se nos queremos definir à altura da nossa humanidade, precisamos de perder o medo ao desconhecido, de sensibilizar a opinião pública para uma atitude positiva, de fazer passar mensagens de coragem e de fraternidade às pessoas à nossa volta, de criar uma cultura de integração e de acolhimento dos refugiados.
Agradecemos imenso a disponibilidade e presença do coordenador da PAR, Rui Marques, nos Álamos, neste final de dia, que nos permitiu aprofundar nesta realidade tão importante e, provavelmente a muitas, ultrapassar preconceitos e abrir novos horizontes sobre o acolhimento de refugiados da Síria e médio Oriente na Europa e também em Portugal.
Artigo escrito por Madalena Brito


