Há famílias que agora já não têm de pensar se vão ou não inscrever os filhos na escola

Maria Coutinho, uma portuguesa que luta pela justiça de oportunidades nos Camarões há mais de 25 anos.

MariaCoutinho2

Uma conversa num banco jardim arrebatou-nos para uma viagem a terras africanas. A atual República dos Camarões foi descoberta por um navegador português, Fernando Pó. O país conhecido como “África em miniatura” acomoda mais de 200 grupos étnicos diferentes. As línguas oficiais são o francês e inglês. A música toca, os cameroneses dançam. Sob o governo de Paul Biya desde 1982, bailam envolvidos num clima de relativa estabilidade política e social, que oculta problemas profundos de desemprego, saúde e injustiça social.

Maria Coutinho foi uma das fundadoras da Associação pela Promoção da Mulher e da Família (APF). Hoje conta-nos sobre as iniciativas concretizadas, no âmbito da educação e desenvolvimento, e o projeto futuro, um centro de saúde.

Maria, se tivesses que resumir numa frase os objetivos da APF, o que dirias?

A APF promove a educação e o desenvolvimento de maneira a que cada pessoa possa crescer em autonomia. E ao mesmo tempo interessar-se pelo bem comum. Pensar ela mesma o que pode fazer para beneficiar os outros que estão no seu entorno. O nosso público mais específico é a juventude, e a família, que no fundo é toda a gente.

O público da APF também é as mulheres. Porquê as mulheres?

Porque as mulheres têm menos oportunidades. Pelo contexto e circunstâncias próprias – o ocupar da casa e dos filhos – não podem seguir certos programas. Os nossos programas são adaptados a pessoas que têm a responsabilidade da família. E a pessoas que têm as características próprias de uma mulher e de uma mãe: necessidade de harmonia, compreensão, não deixar ninguém de fora e ajudar toda a gente.

Maria fala-nos dos projetos que ganharam asas e corpo: a escola Sorawell e o centro de estudos Rigel. Ambos incidem na área de Educação e Desenvolvimento. Sorawell tem 3 programas de formação. A Escola de Hotelaria e Restauração, “onde todas as estudantes encontram emprego imediatamente, ou seja, têm 100% de reinserção profissional”. O CETIF, “um curso preparatório que dá acesso ao liceu ou a qualquer ramo de atividade”. E Módulos de Formação em ciclos curtos “para beneficiar as pessoas vizinhas do centro”. Rigel é um “centro de apoio aos jovens e à família”. Tem salas de estudo e internet para estudantes de liceu e universitárias. Localiza-se perto da Universidade de Yaoundé [capital]. Em Rigel funciona um programa de empreendorismo: Aprender a Empreender “para todas as pessoas interessadas mas com a ideia de ensinar a ter e estimular a iniciativa pessoal. É muito bom para as mães novas” [nos Camarões é comum tratar as mulheres por maman, pois quase todas as mulheres são mães].

“Aprendem fundamentos de gestão para uma atividade, e a fazer a diferença entre o orçamento da empresa e o orçamento da família. São pequenos instrumentos que ajudam as pessoas a viver com autonomia crescente e com capacidade também de olhar à volta delas e ver o que podem fazer para ajudar no seu entorno.”

Sala de estudo de RigelSala de estudo de Rigel

Que projetos têm em curso neste momento?

Em funcionamento está a escola de Sorawell e o centro de estudos de Rigel, onde queríamos ter uma unidade especializada em capital humano.

Mulheres Mulheres que concluíram um curso de formação em Rigel

Esta é a ideia de um próximo projeto?

É um módulo do programa Aprender a Empreender, mas queríamos aprofundar cada vez mais e especializarmo-nos nisto, no reforço do capital humano. O impacto na vida pessoal é muito grande. A pessoa primeiro percebe o seu valor e depois tem mais facilidade em pôr a render as suas qualidades. Como são as pessoas que fazem as organizações, depois vai-se sentir [o impacto] também nas empresas, e, pouco a pouco, na sociedade.

Os Camarões são um país que não tem tradição de iniciativa privada, então a mentalidade mais difundida é a de esperar que seja o Estado a resolver as coisas e os problemas. Agora isso já não é possível. Então pouco a pouco há que despertar, ensinar a ver que não é tão complicado… criar. Criar iniciativas e gerir iniciativas próprias. É importante saber onde se está, onde se quer chegar, e como chegar lá. Por isso tem que se contar em primeiro lugar consigo próprio. Aí está o capital humano.

Um projeto em funcionamento mas que está em plena ampliação é o centro de saúde na área de Mehandan. Por agora, dão-se consultas gerais, que são atendidas por uma enfermeira com muita experiência, que alivia muito todas as populações da zona. É uma estrutura de saúde onde damos muita importância à educação sanitária. Damos muitas formações de prevenção das doenças mais frequentes.

Quais são as doenças mais frequentes?

As doenças mais frequentes são a malária, infeções intestinais, doenças de pele ligadas à falta de higiene, má nutrição e anemia. Temos alguns casos de VIH sida. Temos uma parceria com o governo, e nesse centro oferece-se tratamento gratuito para esses casos. Neste centro de saúde há estas duas vertentes: de cuidados médicos e de educação. Estamos à procura de financiamento para terminar. Aí vão haver consultas de especialidade, laboratório de análises, uma farmácia rural já um bocado melhor equipada. (Já começámos uma pequenina farmácia rural.) Também uma sala de hospitalização de dia, a parte de receção, instalações sanitárias. Quem vai ser a responsável médica desta estrutura é uma professora catedrática em cardeologia, Kathlenn Blakett Ngu, que acabou de se reformar e deu toda a sua disponibilidade para lançar este novo centro médico, que queremos que seja um ponto de referência no cuidado e atenção ao doente e na ética profissional. Graças à experiência de toda uma vida da professora Kathlenn poderemos oferecer formações na ética profissional aos agentes de saúde das outras estruturas hospitalares de Yaoundé e arredores.

Bandeira nacionalBandeira nacional dos Camarões

O nosso centro de saúde já está muito adiantado. Faltam as portas, os sanitários, pintar, arranjar a parte exterior e acessibilidade. Neste momento faltam 60 mil euros, já não falta tanto… [risos] Todas as pessoas que quiserem ajudar… é um projeto que vai ser realizado muito em breve! Depois é uma alegria. É um gosto poder ajudar. Fazer o que se pode quando se pode. Ajudar a melhorar as condições de saúde numa população rural que de facto não tem meios para isso. Vai haver uma pequena página web sobre o projeto Mehandan, do Centro de Saúde. (Veja mais em https://projetomehandan.wixsite.com/portugal)

Existem hospitais ou centros de saúde próximos do vosso?

Os mais próximos ficam em Yaoundé, a 25 km. O nosso é a estrutura de saúde mais próxima num raio de 24 aldeias.

O investimento na ética profissional é uma ideia inovadora ou faz-se noutros sítios?

Que eu tenha conhecimento não se faz. Uma pessoa vai a uma estrutura médica em Yaoundé e o serviço deixa muito a desejar, por falta de formação do capital humano. Se calhar os médicos e as enfermeiras até são capazes mas há um défice, uma margem grande de melhora na parte de compromisso profissional e seriedade, na parte da atenção de cada pessoa.

Maria contou-nos a história de uma jovem médica que tratou um bebé, sabendo que no momento os pais da criança não tinham meios económicos. Foi imediatamente despedida. Mais tarde os pais conseguiram pagar o tratamento.

Criança Criança numa escola onde a APF promoveu um programa de “Métodos de Estudo”. Ofereceu prémios (material escolar) aos alunos que mostraram uma maior melhoria

O dispensário médico está aberto todos os dias?

Sim, de segunda a sexta feira. Como é uma zona muito pobre, para as famílias da zona rural as consultas custam 0,15€. É muito difícil nos Camarões as pessoas acertarem na doença que a pessoa tem. Esta professora tem um olho clínico incrível, tem muita experiência. Teremos as consultas de diagnóstico geral e as especialidades: cardiologia, pediatria e, com o tempo, um gabinete de dentista e de oftalmologia.

Como surgem as ideias dos vosso projetos? Partem do vosso olhar, de se depararem com uma necessidade, e constroem-nos na tentativa de responder a um problema?

Sim, é mais isso. Estar atenta ao que poderia ajudar e, tentar escrever uma proposta de projeto para satisfazer essas necessidades. Procuramos perguntar às pessoas o que é que elas precisam. No final das formações passamos algumas fichas com perguntas que podem ajudar a que tenhamos uma visão sobre atividades futuras. Foi com estas respostas, das beneficiárias, que vimos que era muito recorrente o problema de não terem acesso a água potável. Até à data já se puderam construir 16 poços de água potável. Cada poço tem pelo menos 300 beneficiários, e este número multiplica-se. Nota-se muito no estado de melhoria da saúde das populações.

Esta iniciativa de saúde na zona rural é fruto de muitas atividades de formação anteriores. Programas de higiene, nutrição e prevenção de doenças mais frequentes. Programas de pequena empresa rural, apoios técnicos agrícolas e criação de animais. Um programa de criação de animais foi “Une femme, un porc”. Cada mulher tinha um porco e ao fim de uns meses podia cruzar para poderem multiplicar-se. Vendem alguns, o que permite pagar a escolaridade. Guardam outros para aumentar a reprodução. Este projeto teve muito sucesso na região porque aliviou de um modo muito concreto e consistente muitas famílias. Há famílias agora que já não têm de pensar se vão ou não inscrever os filhos na escola. E quando há casos de doença podem pagar os tratamentos e consultas.

Como é esta parte mais complicada de pedir financiamento? Os projetos nunca se financiam por si próprios [participantes]?

É muito difícil conseguir os meios. Nos Camarões o nível de vida ainda é muito baixo. Fazemos atividades para pessoas de baixo recursos. As pessoas que têm mais meios económicos vão estudar para o estrangeiro. O financiamento mais eficiente é através de amizade, de pessoas que são mais sensíveis às necessidades das outras e procuram ajudar no que faz falta (não em coisas teóricas). Portanto usamos mais fundos privados. Os fundos estatais são mais rígidos, mas também recorremos a eles quando existem e as prioridades coincidem.

O que deveria ser sempre. Saúde, poços, formação…

Deveria ser sempre, mas também há muitas outras necessidades no mundo.

 Abeng, participante de uma formação no meio rural

Conta-nos histórias de pessoas que depois da formação tenham feito alguma coisa ou sofrido alguma mudança visível.

(Esta foi sem dúvida a pergunta mais difícil para Maria. 25 anos intensos de vida e trabalho para os Camarões. As histórias são tantas. As mudanças visíveis e invisíveis, incontáveis. Como sintetizar os efeitos de tantas formas e feitios, os mais óbvios e os mais escondidos, em 2 ou 3 “histórias de sucesso”?)

A mudança é muito visível para a própria. A nossa experiência é que no fim as pessoas estão contentes, passamos a ficha de avaliação de satisfação. Também há pequenos conceitos, experiências, modos de fazer que mudam verdadeiramente o seu dia a dia. E liberta-as muito.

A nível social a mudança também se vê. Pessoas que arranjam emprego. Pessoas que são empregadas justamente porque puseram no seu currículo as formações, graças a isso foram seleccionadas. A experiência do Centro de Rigel é que agora também queremos construir em Douala [cidade mais populosa dos Camarões] esta estrutura de formação, apoio ao estudo e ao trabalho profissional. Já temos o terreno e os projetos de arquitetura a serem revistos e melhorados. É uma questão de oferecer mais oportunidades no país. As pessoas emigram porque não encontram no país aquilo que precisam. A emigração é sempre uma second choice. Muitas pessoas querem emigrar. O seu objetivo é conseguir um bilhete de avião e ir para a Europa, EUA, Canadá. Com estas estruturas de formação esperamos que, pouco a pouco, haja mais justiça e oportunidades de construir no próprio país.

Mulheres2 Mulheres que concluíram um curso de formação em Rigel

Maria no fim contou-nos algumas histórias reais que brotaram deste labor.

1. Do programa Une femme un porc

O primeiro rapaz da aldeia a ir estudar para a universidade.

Na aldeia de Ayene uma mãe seguiu os apoios técnicos. Cuidou muito bem do seu porquinho. Cruzou-o, nasceram mais. Vendeu alguns para cobrir necessidades imediatas, mas conservou alguns para vender mais tarde. Foi graças a isso que conseguiu enviar o filho para a universidade.

Uma mãe que repetiu o programa e hoje tem 30 porcos.

As pessoas mais interessadas assistem mais do que uma vez à mesma formação. Corrigem, retificam, fazem perguntas, porque já têm casos práticos de dificuldades. Juliane começou com um e hoje já tem mais de 30 porcos. Isto ajuda muito, a viver com um pouco mais de meios económicos.

2. Do programa Apprendre à Entreprende

As pessoas aprendem a gerir melhor os seus negócios.

Crescem. Não misturam o dinheiro da empresa com o da família – que é uma grande causa de mortalidade das empresas nos Camarões. Hoje temos um acordo com uma Microfinança. E as pessoas já sabem o que é viver com dinheiro, o que é um crédito e o que é devolver. Na APF temos a boa tradição e experiência de ensinar esquemas de financiamento de atividades – esquemas de poupança, ou gestão de stocks – alternativos ao recurso ao crédito. Isto permite crescer, pouco a pouco, com os recursos próprios. O crédito, é uma solução de último recurso, pois causa dificuldades e angústias… e o mercado não é linear.

 

3. Do curso de Hotelaria de Sorawell

As alunas fazem os estágios nos melhores hóteis de Yaoundé: Hilton e Djeuga Palace.

O Hilton selecionou Sorawell para um projeto de formação do próprio hotel, oferecendo no final, como prémio à melhor aluna, um contrato de trabalho.

Uma antiga aluna com muitos anos de experiência de trabalho, hoje é responsável de pessoal num restaurante italiano. O restaurante, que pretende expandir-se, fez um pequeno acordo com Sorawell, pedindo assistência técnica as alunas de Sorawell, e em contrapartida, oferecendo uma bolsa de estudos. Pois em Sorawell, são estudantes de poucos recursos (nunca encontrámos uma que conseguisse pagar o custo real da formação) pelo que temos que procurar fundos para cobrir esse défice.

4. Dos cursos de Business coaching e Personal Coaching de Rigel

Uma mãe que hoje está à frente de um negócio de vendas de especiarias locais bem acondicionadas.

Este curso está a permitir que as pessoas reparem que têm um potencial enorme dentro delas. E isto dá muito contentamento. Descobrir que se é capaz de fazer alguma coisa, e bem. São tão importantes estas formações práticas, bem organizadas e estruturadas. O foco principal fica na pessoa. Na sua força e capacidade de aguentar situações difíceis e descobrir alternativas. No saber interessar-se pelos outros (uma coisa que se tem de desenvolver muito nos Camarões), não pensar só em necessidades pessoais ou da sua casa.

Maria revela que ao planear estes cursos pensaram: “O que pode ajudar uma pessoa a fazer-se valer por ela mesma?” (a ter mais capacidades e pô-las em prática). Este curso foi uma grande descoberta, encontramos nele um bom filão que corresponde a esta necessidade.

Há pessoas que tinham abandonado a sua atividade e a retomaram, reestruturarando. (Já sabiam o que tinham que fazer, e tinham a motivação suficiente para fazê-lo). Falo de pessoas que estavam desencorajadas, porque perderam o emprego ou porque tinham dificuldades nas suas famílias, e descobriram que são um barco, que o barco tem um leme, e que elas podem pôr a mão ao leme.

Então estes projetos são algo que muda mais internamente…

Também dão capacidades! Aprendem a fazer contabilidade. Aprendem línguas, como o Inglês. Aprendem a mexer no computador. Isso é uma coisa muito objetiva e concreta. Em Sorawell aprendem uma profissão, um ofício reconhecido pelo Ministério e Mundo do trabalho. Também procuramos proporcionar atividades de ocupação de tempos livres. Promovemos o desporto, entre os jovens e também entre as mães! Fazem aulas de ginástica ao som da música. As estudantes que fazem as técnicas de trabalho e metodologias de estudo aumentam as notas. Crescem também em confiança nelas mesmas. Há um grande problema de (auto)estima dissimulado nos Camarões. Um pensamento comparativo, o que vem de fora é melhor.

Abeng, participante de uma formação no meio rural, e a sua família Abeng, participante de uma formação no meio rural, e a sua família

Hoje pessoas novas casam-se, têm filhos, e querem proporcionar-lhes uma educação melhor. Se calhar isto é que é uma história de sucesso: casais jovens criaram Tiama, a primeira escola [de associação de] pais nos Camarões. A Direcção, os Professores, e os Pais associam-se na promoção da educação dos miúdos. Começaram como infantário, com uma classe dos 3 anos. A escola vai crescendo com um novo nível cada ano. Os pais que têm filhos inscritos com 3 anos notam a diferença em relação aos mais velhos, 5, 6, 7 que gostavam de se ter inscrito nesta escola! É uma escola trilingue: ensinam espanhol, francês e inglês. Mas o ensinamento mais importante é o respeito: a estima e o carinho com que se trata cada miúdo. Foram pais que participaram nas formações de Rigel e Sorawell.

É essencial numa sociedade o respeito. Por cada pessoa. E isto está na base desta escola. Esta ideia já é fruto do trabalho de pessoas que seguiram formações há anos. Elas próprias pensaram “O que podemos fazer?”

Entrevista e fotografias: Dulce Frazão, estudante de Comunicação na FCSH/UNL

Maio de 2017

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